quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Nascer duas vezes


A realidade é mais espantosa que a ficção…
A história de Lynlee é, talvez, única na história da humanidade: nasceu duas vezes, leio no Público desta semana. Às 16 semanas foi retirada do ventre materno para uma operação de 20 minutos, sem a qual o tumor (que estava a provocar-lhe falhas no coração) apoderar-se-ia do seu corpo. A mãe não teve dúvidas: “quis dar-lhe uma vida”, “oferecer-lhe uma hipótese na vida”. Nasceu em Junho, pela segunda vez: “voltou ao mundo, mas agora para ficar cá”!
Voltar a este mundo, e ficar nele, querê-lo muito! - uma ideia espantosa.
Recordo de imediato o mais recente livro de Ian McEwan, Numa Casca de Noz, onde o narrador é um bebé, um nasciturno sem nome, sem morada e cujo sexo o leitor desconhece, mas que , mesmo antes de nascer, já ama este mundo. Ele é testemunha, por trás  das paredes uterinas, do estado do mundo que está prestes a recebê-lo. O bebé da ficção ouve tudo. Escutar é a sua forma de aprender e se preparar para o que o espera: um lugar de guerras, um mundo onde morrem milhares de crianças a cada semana que passa por falta de coisas simples como água potável, redes mosquiteiras, medicamentos baratos;  e um mundo onde os robôs roubam postos de trabalho (etc.). “Construímos um mundo demasiado complexo e perigoso", escreve McEwan.
É este mundo em que Lynlee já vive. Mas, ao mesmo tempo, ela pode contar com tratamentos indolores, contacto imediato com pessoas que amamos, luz eléctica, ternas simpatias pelas crianças e animais, centenas de milhões de pessoas  que saíram do nível miserável de subsistência, etc. “Milagres banais". 
Tal como o bebé de McEwan, a menina americana ( Lynlee ) terá absorvido tudo , ouvido tudo, aprendido muito dentro do ventre de sua mãe e, desde sempre, a terá amado.
Boa sorte, Lynlee! “ Há muito a celebrar”, apesar de tudo!
E mesmo sem a medicina, é possível nascer mais que uma vez para o mundo!

2 comentários:

  1. Também me surpreendeu a notícia. A Ciência, todos os dias, rompe barreiras que jamais pensávamos ser possível serem ultrapassadas.

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  2. O ser humano é algo de inexplicável, porque é misterioso. Capaz das maiores façanhas na defesa da vida, ao mesmo tempo, noutros lugares da terra, destrói a vida dos seus semelhantes sem dó nem piedade. Sabemos que são acções de pessoas diferentes, mas é difícil perceber as descomunais diferenças.

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