quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Proibir eutanásia é violência

Dito assim, parece excessivo e sectário. Mas há que considerar que a morte assistida, caso venha a ser despenalizada, só será praticada em situações muito bem delimitadas, com a intervenção de agentes credenciados, médicos ou não, sem objecção de consciência, e, acima de tudo, a pedido do doente. Até se encontrar em situação semelhante que o leve a ponderar tal hipótese, ninguém - nem mesmo quem legisla - poderá imaginar o estado, provavelmente de grande desespero, em que, com certeza, o doente vive.
Despenalizar a sua prática não é estorvar o desejável reforço do sistema de cuidados paliativos nem, naturalmente, forçar alguém a socorrer-se dela. Impedir outrem de praticar um acto da mais profunda intimidade que, materialmente, não prejudica terceiros, não passa de uma violência da sociedade sobre um indivíduo em sofrimento irreversível e, mais do que isso, já desprovido de ilusões de futuro. Lembro que, em países “civilizados” que permitem a iniquidade da sentença de morte, se faculta aos condenados, normalmente, a satisfação de um último desejo. Por que não respeitar a última vontade de um doente condenado e sem futuro?

4 comentários:

  1. Como é habitual,gosto sempre dos seus textos e este foi mais um. Ontem li, algures, um cabeçalho que parafraseava D. Manuel Clemente e que dizia: a discussão sobre a eutanásia não faz sentido (sic). Porquê, pergunto eu? Porque se "arruma" a discussão para a inexistência? Confesso que não percebo!

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    1. Caro Fernando
      Creia que não é por simpatia reflexa que lhe retribuo o cumprimento que me faz. Na verdade, aprecio muito os seus textos.
      Quanto ao tema em apreço, o que me custa a compreender é que haja quem pense que alguém (com ou sem coragem para praticar a eutanásia sobre outros ou para pedi-la para si próprio), se arrogue o direito de proibi-la universalmente. Só isso. E a posição mais cómoda e eficaz, claro, é não se discutir o assunto, mantendo-se o conveniente statu quo.

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  2. Respostas
    1. Caro José Amaral,
      Quando em crianças aborrecíamos muito as nossas mães com os porquês, arriscávamo-nos a ouvir uns "porque sim" ou "porque não". Nisto é a mesma coisa, não temos de perceber: é assim... porque sim.

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