sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

À conquista da dignidade


Eram tempos amargos, aqueles. Estávamos na década de 50 do século passado, e os pobres, aqueles que já conseguiam trabalho assalariado, mal sobreviviam; com o que ganhavam, recuperavam forças, de dia para dia, de sol a sol, de segunda a sábado, sobrando-lhes o domingo para ver o sol sem estarem vergados.
Aos rapazes desta história, tinha-lhes morrido a Mãe repentinamente. Com 50 anos de idade fora atropelada por um camião, num dia de extremo inverno.
O mais novo deixara o Seminário, onde a sua mãe, analfabeta, empenhadamente havia arranjado maneira de o internar, pois a vida e a sua inteligência lhe ensinara a importância de saber.
Com esta brutal mudança nas suas vidas, conseguiu o mais velho que o seu patrão "desse", como se dizia, trabalho ao moço, como carinhosamente os irmãos mais velhos tratavam o mais novo - era o moço; que sob a sua supervisão, se foi adaptando aos seus pesados novos afazeres, aprendendo, conhecendo os cantos à casa.
Aconteceu que, logo nos primeiros dias, o novato fez transparecer uma azelhice na execução de uma tarefa. Melhor dizendo, demonstrou pouca força física para carregar com o peso de um determinado volume. De imediato, o patrão por perto, aplicou-lhe o castigo - um valente estalo na cara.
O irmão mais velho, a alguns metros, assistira a todos os passos até à aplicação daquela desumana sentença. Saltou junto dele, e com calma, pediu-lhe:
- Oh moço, vai buscar a tua roupa e espera-me lá fora que eu saia.
No dia seguinte, esperançoso de conservar o emprego, pois dele dependia a sua sobrevivência e de alguns seus irmãos, foi trabalhar normalmente. O patrão viu-o, pediu-lhe desculpa e pretendia o reingresso do adolescente. Não foi preciso.
3/2/2017
Barros Correia

3 comentários:

  1. Confesso que não entendi de todo o último parágrafo. A quem se refere, ao "moço ou ao irmão mais velho. Não foi preciso o quê? Pode explicar-me? Obrigado.

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  2. O patrão, desculpando-se, queria manter o trabalho ao moço. O irmão mais velho já decidira recusar essa eventualidade, pelo ocorrido. E não foi preciso essa humilhação, porque dias depois já estava a trabalhar noutro local (o mais novo). E (mais tarde) também o mais velho. Obrigado pelo reparo. Tenho a mania do improviso.

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