sábado, 9 de julho de 2016

A GENTE NÃO LÊ



Com a devida vénia, usurpo o título do realista e lindíssimo poema de Carlos Tê, magistralmente cantado por Rui Veloso, para dizer que o senhor Durão Barroso foi para a administração de um dos principais pilares do capitalismo mundial, a Goldman Sachs. Aliás, de onde veio o seu correligionário de partido e de cargo na União Europeia, Carlos Moedas, e onde também se encontra outro ex-governante e do mesmo partido,José Luis Arnaut. Ou seja, é natural esta gente rodar nestes cargos e nestas instituições ao serviço do capitalismo indígena e transnacional. O que não é natural é o povo votar aos milhões, no partido destes senhores. Fá-lo por isto que Carlos Tê,tão genialmente nos diz:


“Ai, Senhor da Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão.
Rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

E do resto entender mal,
Soletrar assinar em cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.

Ai, Senhor das Furnas,
Que escuro vai dentro de nós.
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria.
De boca em boca passar o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira.
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira.

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.”

Francisco Ramalho

Corroios, 9 de Julho de 2016

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