quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O FRIO MERCADO DE CARPAS


*Cristiane Lisita



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As carpas  têm por habitat, em Portugal, as bacias hidrográficas, salvante à do norte, do rio Douro, cujas espécies são reduzidas. Alimentam-se de plânctons, que são a base da teia alimentar aquática, renovando o oxigênio. São peixes audazes e combativos que buscam, nas águas mais rasas, vegetações ou algo que possa ampará-los na fuga do frio ou do calor demasiado.

Envoltos de grandes escamas que ornam o dorso quase esverdeado, vão da cor cinza ao prateado, excluindo aqui os ornamentais. Pertencem ao imaginário popular, revelado em algumas lendas. A mais curiosa delas afirma que a carpa pode transformar-se em um dragão, uma vez que consiga nadar contra as correntezas, na época da desova, e alcançar o rio Amarelo, o Huang Ho, na China, depois de saltar tantas corredeiras para atingir o topo da montanha Jishinhan. Em razão desse fato, as carpas significam determinação, alento, energia ao desvendar o rio, no subir das quase infindáveis correntezas.

Do mesmo modo que as corajosas carpas, a classe pobre arrisca-se a viver, pois navegar é preciso, apesar das tantas torrentes de extrapolações de valores e das agruras.  A classe pobre, como aqueles peixes comuns, se debate diante da desigualdade social latente, das águas coalhadas de algas azuis a se decomporem, roubando o oxigênio instigando-os a sucumbir.

 Em conformidade com os dados do Instituto Nacional de Estatística, sendo o último de 2015, pode-se constatar que a população residente em risco de pobreza e/ou exclusão social, verificados sexo, grupo etário, condições de vida e rendimento, alcança o patamar de 27,3%, ou seja, a miséria abrange perto de 1/3 da população. São dois indicadores erigidos com base na taxa de risco de pobreza após transferências sociais e intensidade laboral per capita muito reduzida, bem como a privação material severa do período em questão.

Todos os anos quando chega o outono, e, depois, o inverno, milhares de cidadãos, desprovidos de recursos financeiro-materiais, morrem em razão da friagem, e de suas consequências, a exemplo dos moradores das habitações sociais, destacando-se as pessoas envelhecidas, e, além disso, aqueles do meio rural, cujas casas não possuem, comumente, isolamento térmico adequado, e mesmo a falta de condições para arcar com os custos de uma eficiência energética, uma vez que a taxa de eletricidade é uma das mais caras dentro da União Europeia. No inverno passado foram quase 5.600 mortes ultrapassando as expectativas nesse quesito. Faleceram 86 mil pessoas devido ao frio, verificando informações que abrangem o período de 2000 a 2009.

Assim, as carpas se lançam no rio na procura pela subsistência, obedecendo às quedas e planuras, aos acidentes do caminho, para alcançar o Jishinhan. Algumas vezes transformam-se em dragões a sobrevoar as incógnitas águas sabendo serem heróis em algum espaço da Terra, por resistir. Como diria a Marquês de Maricá “a pobreza não tem bagagem, por isso marcha livre e escuteira na viagem da vida humana”.

 Em muitas ocasiões, as carpas também hão de soçobrar na própria violência das águas e, igualmente, dos predadores, e, quiçá, dos pescadores. Acomodou-se a ignorar a indigência, a penúria do outro e a ser omisso. Afinal, parece que o provérbio chinês estava correto: acostumamos ao mau cheiro do mercado de peixes.


*Cristiane Lisita (jornalista, escritora, jurista).




                        

1 comentário:

  1. Que a desigualdade social que paira por estes lados não se prolongue e que haja mais solidariedade e, principalmente, políticas públicas que possam mudar essa realidade. Parabéns pelo artigo! Que seja um alerta!

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