sábado, 29 de fevereiro de 2020


“As palavras”...


“Falsificado até aos ossos e mistificado, escrevi alegremente sobre a nossa infeliz condição. Dogmático, duvidava de tudo, excepto de ser o eleito da dúvida; restabelecia com uma das mãos o que destruía com a outra e tomava a inquietação como a garantia da minha segurança; era feliz. Mudei.
                                                              (...)
Voltei a ser o viajante sem bilhete que era aos sete anos: o condutor entrou no compartimento e fita-me, menos severo que outrora: na realidade, só deseja ir-se embora, deixar-me concluír a viagem em paz; basta que eu lhe dê uma desculpa válida, não importa qual, e ele aceitá-la-á. Infelizmente não acho nenhuma e nem tenho, aliás, vontade de a procurar.

Desinvestí-me, mas não abjurei das ordens: continuo a escrever. Que outra coisa fazer? É o meu hábito e é, também, o meu ofício. Durante muito tempo tomei a pena por uma espada; agora, conheço a nossa impotência. Não importa: faço e farei livros; são necessários; sempre servem, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem.

Quanto ao mais, o velho edifício ruinoso, a minha impostura, é também o meu carácter: livramo-nos de uma neurose mas não nos curamos de nós. Gastos, obliterados, humilhados, encantoados, passados em silêncio, todos os traços da criança permanecem no quinquagenário. A maior parte do tempo abatem-se na sombra, espreitam: no primeiro instante, de inadvertência, levantam a cabeça e penetram, disfarçados, no dia claro: pretendo sinceramente escrever apenas para o meu tempo, mas irrita-me a minha notoriedade presente; não é a glória, pois estou vivo, e só isso basta para desmentir os meus velhos sonhos; tendo perdido as minhas probabilidades de morrer desconhecido, gabo-me às vezes de viver mal conhecido.
                                                                     (...)
O que eu amo na minha loucura é o facto de me ter protegido, desde o primeiro dia, contra as seduções da élite; nunca me julguei feliz proprietário de um “talento”; a minha única preocupação era salvar-me – nada nas mãos, nada nos bolsos – pelo trabalho e pela fé. Desta feita, a minha pura opção não me elevava acima de ninguém: sem equipamento, sem ferramentas, dei-me inteiro à acção para inteiro me salvar.  Se arrumo a impossível salvação para o quarto das velharias, o que me resta? Apenas um homem que os vale a todos e a quem, por sua vez, valem quaisquer outros”.


Nota – transcrito do livro anexo por
Amândio G. Martins

2 comentários:

  1. Palavras: compulsão? escopo didáctico? egotismo? diletantismo? crença? Tudo isso? Nada disso?...

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  2. Caramba, "tudo isso", em simultâneo, torna-se incompatível; "nada disso" é impossível...

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