quarta-feira, 19 de julho de 2017

O TRIUNFO DOS PORCOS

Vivemos num mundo em que predominam as aparências e o faz de conta, onde quase tudo é artificial e irreal, onde os valores verdadeiramente importantes foram substituídos por barómetros e estudos a partir dos quais as pessoas estruturam os seus comportamentos e balizam os seus conceitos de bem e de mal, de sucesso e de insucesso.
Esta formatação do Ser, tem tanto de castrador como de humilhante mas a pressa com que todos temos que gerir o quotidiano nem sempre nos permite ver o quanto estamos a ser manipulados.
Sinceramente, olho para o mundo de hoje e para o que diariamente nos entra pelos olhos e pela casa dentro em termos de notícias, de cá e do mundo e lembro-me sempre do Triunfo dos Porcos do George Orwell ( se não conhecem nem nunca leram , aconselho vivamente a que o façam ).
Este romance de George Orwell, cujo título original é Animal Farm, foi publicado em 1945, posteriormente adaptado ao cinema e continua hoje a ser uma referência, sobretudo quando os debates e as reflexões incidem sobre como ao longo dos tempos o idealismo foi traído pelo desejo de poder e pela corrupção e mentira. Orwell utilizou magistralmente, diga-se, uma fábula, colocando animais de uma quinta a apropriarem-se da mesma e posteriormente com as suas decisões a atitudes a transformarem o “sistema” num antro corrupto, pervertendo todas as regras e criando cada vez mais assimetrias dentro da comunidade, no clássico “dividir para reinar”. Os porcos tornam-se corruptos pelo poder, instala-se uma nova tirania e impõe-se um novo princípio: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros".
Não precisaremos fazer um grande esforço para colocar umas fotos no focinho dos porcos em questão e passarmos a ter uma espécie de reality show quase obsceno do que se passa no mundo, ao qual vamos assistindo, entre o incrédulo e o impávido e sereno, tal o estatuto de impunidade e “normalidade” que certos comportamentos adquiriram.
Se por um lado é verdade que nunca como nos dias de hoje existe uma percepção clara de que “uns são mesmo mais iguais que outros”, por outro lado a postura quase acéfala por parte do cidadão comum que revela uma estranha adaptação à imoralidade / amoralidade, não deixa de causar estupefacção.
Senão vejamos – é raro o dia em que os noticiários não comecem com bombástica notícias de mais um escândalo de corrupção, mais buscas aqui e acolá, mais suspeitos, mais detidos ,mais audições, mais medidas de coação, mais, mais, mais… e o povo, ávido de sangue porque as notícias boas não interessam nada, pede mais e fica salivando à espera de mais “vítimas”, alimentando a esperança de que desta é que “eles” vão “dentro”.
Só que… só que depois não acontece nada; os processos arrastam-se ad eternum e muitos, com as habilidades em que alguns gabinetes de advogados são experts, até prescrevem, para gáudio dos acusados que vão à sua vidinha a rir-se dos pacóvios que ainda tiveram a veleidade de imaginar que se faria justiça. Nesta matriz os casos que poderia referir são inúmeros, mas não vou especificar nenhum porque me parece desnecessário e poderia ser “injusta” se me esquecesse de algum.
Depois, temos a eterna promiscuidade entre a política, a banca e os negócios continuando a assistir à multiplicação de casos de ex-governantes / deputados e afins que cumulativamente ou não se tornam assessores, administradores, executivos ou não, de grandes empresas, fundos, fundações, multinacionais, bancos, como se isso fosse a consequência natural e normal de terem sido políticos. Dir-me-ão que a lei permite. Certo, até pode permitir em certos casos mas, existe ou deveria existir uma coisa que se chamada ética e pudor; existe ou deveria existir uma coisa que se chama bom senso e tal não existe de todo, o que me remete para a conhecida máxima sobre a mulher de César que “não basta ser honesta, tem de parecer honesta” e a multiplicação generalizada de casos destes, pelo menos, planta a semente da dúvida, ao mesmo tempo que nos cola na testa, a nós comuns cidadãos, o rótulo de otários honorários.
Sempre ouvi dizer que viver não custa, custa é saber viver e pelo rumo que as coisas têm tomado nos últimos anos, estou em crer que o tal saber viver é uma variável da Democracia com a qual não me identifico mas talvez tenha sido por terem chegado à mesma concussão que eu que encontramos nos pensadores deste e do ultimo século, reflexões tão interessantes acerca das virtudes e “problemas” do sistema democrático.
Recordo apenas alguns : Winston Churchill disse um dia que "A democracia é a pior de todas as formas de governo, exceptuando-se as demais."; já Oscar Wilde refere-se à democracia como sendo “ o desencanto do povo, pelo povo, para o povo”; finalmente Jorge Luis Borges afirma que, “A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis.”
Não querendo ofender ninguém, eu inclusive que também voto, com uma interpretação literal da frase anterior, a verdade é que a história tem vindo a confirmar que a “coisa” não está a resultar e temos portanto a obrigação moral de nos questionarmos sobre o que é que está a falhar e porquê.
Depois de muito pensar, repensar e voltar a pensar, chego sempre à mesma conclusão – a fragilidade da nossa cidadania ( egoísta e egocêntrica) e a incapacidade crónica, alimentada pelo sistema de ensino e pela comunicação social, de sermos proactivos no questionamento das desigualdades e da realidade que os rodeia e para a qual, por inacção contribuímos.
Enquanto assim for…os “porcos” têm caminho livre para continuarem a liderar e a manipular-nos, mas quem fica atolado na “pocilga” somos nós.
Graça Costa
Texto não escrito ao abrigo do acordo ortográfico

12 comentários:

  1. Venho aqui somente para corroborar aquilo que a Graça entende. Que o "Triunfo dos Porcos", juntamente com o "Admirável Mundo Novo", deviam ser de leitura "obrigatória". Sem o eufemismo (embora seja a tradução literal) de ser " A Quinta dos Animais", pois é o livro-metáfora do estalinismo soviético de tão má memória. E porcos são porcos.

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    1. muito curioso o seu comentário...ideologias à parte, tem toda a razão, porcos são porcos.
      um dia feliz para si

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  2. Duas grandes leituras, sim. Para quem procure, existe uma edição e tradução mais recente que usa mesmo o título "A Quinta dos Animais"

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    1. uma tradução infeliz ,mas sim existe- pessoalmente prefiro o original mas obrigada pela referência e pelo contributo.

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  3. Temos aqui, salvo erro, 3 companheiras de escrita. É pena não termos mais, porque qualquer uma delas, quando aparece, não é para entrar mosca ou sair asneira. É sempre para dizerem coisas muito interessantes, como é o caso agora, e mais uma vez, da Graça. E é muito redutor sintetizar-se estas suas opiniões apenas no Estalinismo. Parece até que aí temos um maravilhoso e admirável mundo novo. Parabéns Graça, por ser uma pessoa que pensa e não mais uma imbecil. Atenção! esta, não é carapuça aqui para ninguém...

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    1. Grata pela generosidade do comentário.Gosto de pensar e sempre achei que o pensamento partilhado é mais enriquecedor para o próprio e para os que queriam pensar comigo. A actualidade do "animal farm" é de facto assustadora e deveria fazer-nos parar para pensar . Os sistemas políticos dos diversos países e inclusive as chamadas democracias estão minados de "porcos" e aprendizes de "porcos". O nosso papel / contributo na perpetuação e multiplicação dos mesmos é que temos que ser capazes de ponderar para que saibamos se existem alternativas ou estamos condenados a ser governados por eles. É isto...e não é pouco, na minha modesta opinião. Bom fim de semana

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  4. O "Triunfo dos Porcos" ( Animal Farm, no original) foi publicado em 1945. Todos os críticos (e eu mesmo, ao lê-lo) o consideraram e consideram uma sátira ao estalinismo. Todos. "Sei agora que não é". Como na anedota, agora é que passei para a faixa de rodagem certa pois, os outros milhares é que continuam naquela que deixei para me tornar... estalinista.
    Assino: "uma" imbecil "chapada"!

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    1. As opiniões sobre a obra tiveram , numa primeira fase , muito a ver com o contexto social da época e interessava a uma certa elite política fazer passar essa mensagem de colagem ao Estalinismo. É sempre assim e sempre assim será - o distanciamento necessário a interpretações lúcidas , só o tempo permite. Bem haja

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    2. Quer dizer que o livro não era intencionalmente uma sátira ao estalinismo? Então a quem entende que era? Não estou a falar de como pode ser aproveitado para outras utilidades nos dias de hoje. George Orwell já cá não está senão explicar-nos-ia. Um livro publicado em 1945 é para ser explicado em 2017? Aproveitado sim, explicada a intenção de escrita, não vejo como.

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    3. Era uma sátira ao Estalinismo, obviamente que sim, mas feita com a intencionalidade de o desacreditar por parte do Ocidente. Foi só isso que quis dizer. Na altura nem toda a gente o entendeu...mais tarde sim- quando falo do distanciamento necessário à lucidez tem a ver com isso. Lamento não ter sido clara.

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  5. Com que então, os "tipos da esquerda", ou quaisquer outros, são obrigados a "confessar" (ó Fernando não podia ter pelo menos arranjado um termo mais simpático?) " a sua filiação ideológica e/ou partidária". Depois vem a vitimização da imbecilidade, mesmo depois de eu ter alertado que a mesma não se aplicava aqui a ninguém. A seguir,a minha suposta análise ao livro em causa, como se eu o tivesse feito. Depois a deturpação: o que disse e repito é que o que a Graça escreveu, a sua análise crítica, aplica-se que nem uma luva a esta democracia influenciada pela minoria que detém o poder económico e mediático. Ou não será assim? Fernando, creio que todos/as aqui reconhecemos as suas capacidades intelectuais e os seus conhecimentos. Mas não acha que um bocadinho mais de modéstia e o reconhecimento que os outros também têm direito à sua opinião e às suas opções, lhe ficava bem? Pronto! por agora fico-me por aqui. Até à contra-resposta.

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  6. Pois vai ficar sem ela, porque é impossível.

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