sexta-feira, 29 de abril de 2016

REFLETINDO SOBRE O INSUCESSO ESCOLAR EM PORTUGAL


Estamos constantemente a ser bombardeados com estudos e relatórios que reflectem a realidade do insucesso escolar em Portugal, mas a verdade é que ambas as faces da moeda são, em muitos casos uma fraude.
Nem o insucesso é como o pintam, nem o sucesso é assim tão verdadeiro.
Sabemos que uma percentagem significativa dos portugueses não tem mais do que o 9º ano; que mais recentemente tem sido feita, com alguma insistência a relação entre a escolaridade dos pais e o sucesso / insucesso dos filhos, bem como a alarmante, na minha modesta opinião, taxa de reprovações no segundo ano do ensino básico (segundo os últimos dados, chumbaram no ano passado 11.000 alunos, que aos 7 anos começam a ser condenados ao insucesso – isto é verdadeiramente inacreditável e uma vergonha no contexto europeu e até mundial).
Considero que estes dados não podem ser vistos de forma descontextualizada e remetem-nos para a necessidade e de uma análise desapaixonada da realidade portuguesa e para a ainda, mais necessária, sensatez nas abordagens.
Se olharmos apenas para “ as gordas” das notícias ventiladas pela comunicação social, é relativamente fácil e tentador, encontrar bodes expiatórios para responder a este problema, mas se formos por esse caminho nunca mais chegaremos ao cerne da questão.
Tentemos desmontar os dados.
Bem, a relativa baixa escolaridade dos portugueses é uma realidade e pouco ou nada poderemos dizer nesta matéria a não ser que, apesar de termos já uma democracia madura, com quase 42 anos, a realidade é que o atraso sistémico em termos culturais e as assimetrias sociais do nosso país ainda não permitiram que estejamos ao nível médio da Europa nesta matéria .
Contudo, será que isso é, por si só, a variável que condiciona o sucesso escolar dos nossos jovens?
Coloco esta questão, porque as pessoas que estão agora na casa do 50 / 60 anos ( a minha geração ), foram certamente em muitos casos as primeiras das respetivas famílias a conseguir tirar um curso superior, mas os seus pais, eram ou são maioritariamente pessoas com baixa escolaridade.
Como se explica então o nosso “sucesso”, com pais “academicamente limitados” ?
Dir-me-ão, ah e tal os tempos eram outros e eu direi, que sim…que os tempos eram outros e o sistema de ensino também; que o acesso à informação era mais limitado mas mais nivelado; que a aprendizagem era focalizada na escola e não na Internet e nas redes sociais e tinha uma estabilidade de métodos e conteúdos que agora não tem; que a relação entre professor e aluno era bem mais sensata do que aquela que o “sistema” agora impõe, quer a alunos, quer a professores e que havia uma coisa que se chama respeito, competência que hoje é altamente desvalorizada e em muitos casos mesmo retirada do sistema de ensino, tendo sido substituída pelo medo.
Por outro lado, que me perdoem os defensores da causa, mas não me parece, de todo, que o sistema democrático tenha democratizado o acesso à educação, no sentido mais abrangente do termo. Após o 25 de Abril, democratizou-se o acesso à educação, sim, mas na maioria dos casos o que aconteceu foi trazer para dentro das escolas muitas desigualdades e assimetrias sociais, contra as quais a escola pode muito pouco. Na realidade, a história tens-nos mostrado que que o sistema de ensino se tornou progressivamente mais elitista, estigmatizando, muitas vezes de forma subliminar, crianças e jovens que não se vistam, comportem, ou demonstrem ter acesso a ferramentas que se considera serem agentes “potenciadores” do mérito académico. Faz-me lembrar a alegoria dos meninos azuis, aparentemente todos iguais mas depois diferenciados de acordo com o tom - azuis claros para a frente, azuis escuros para trás.
De referir, ainda, erros grosseiros que tem vindo a ser cometidos, quer em termos dos programas escolares, quer em termos dos métodos pedagógicos utilizados, logo a partir do primeiro ciclo e que claramente potenciam o insucesso. Em termos de políticas educativas, o nosso país tem sido um enorme laboratório de experimentação, que muda consoante o partido que esteja no governo não havendo condições na maioria das vezes, para fazer uma avaliação consistente dos resultados da implementação das mesmas, por manifesta falta de tempo de aplicação das medidas.
Esta volatilidade nunca permite validar, ou não, o sucesso de determinada política ou método pedagógico. Sabendo nós que os chamados partidos do arco da governação, têm visões totalmente antagónicas tanto no que respeita à estrutura e organização, quanto à definição dos currículos e conteúdos a leccionar, não é muito difícil perceber a teia de paradoxos em que a Educação está metida, com todas as implicações que isso tem na formação das nossas crianças e jovens, que são as verdadeiras “vítimas do sistema”.
Os exemplos possíveis são mais que muitos, mas falemos por exemplo da disciplina de matemática do primeiro ciclo, onde o índice de reprovações logo a partir do segundo ano é profundamente chocante.
Será que faz sentido que as nossas crianças sejam obrigadas a aprender o B A Bá do cálculo numérico através de métodos que para os pais, mesmo com formação superior, sejam totalmente chinês e que os obriguem, para poderem ajudar os filhos a fazer o trabalhos de casa ( outra aberração ), a passarem horas na Internet a percorrerem tutoriais no Youtube para conseguirem ensinar os filhos a fazer uma conta básica, segundo o método que agora é moda?
Será que faz sentido, em nome da suposta autonomia das crianças, mandar fazer trabalhos de pesquisa uns atrás dos outros, para todas as disciplinas e mais uma, sabendo que existem milhares de crianças que não dispõem dos meios informáticos, nem de bibliotecas perto de casa para o poderem fazer?
Mais, de que serve o estimular desta suposta autonomia quando se sabe que a maioria desses ditos trabalhos são feitos pelos pais e não pelas crianças e se quisermos ser ainda mais contundentes, o que dizer da forma como são tantas vezes tratadas as crianças que efetivamente fazem as coisas, de forma autónoma e portanto não apresentam trabalhos tão “bem feitinhos” como alguns colegas e ao invés de serem premiadas pela honestidade intelectual, sua e dos pais, são desvalorizadas no seu esforço?
Felizmente já existem muitos professores que se recusam a enviar trabalhos de casa e este tópico só por si mereceria uma crónica, mas a verdade é que nos últimos anos, esta temática voltou à ordem do dia, havendo mesmo a ideia de que o professor que não manda trabalhos de casa é menos capaz do que o que o faz.
Contudo, triste mesmo é o facto, conhecido por todos os que se interessam minimamente por estas matérias de que, hoje em dia muitas escolas trabalham para os rankings, nem que para isso tenham que mafiar as notas dos alunos – não sou eu que o digo, são os “estudos”.
Podia dizer muito mais mas não me serviria de nada, até porque o que conta são as estatísticas e os estudos portugueses e estrangeiros e que nos colocam pelas ruas da amargura em termos de insucesso escolar. Lembro uma notícia do Jornal Expresso do passado dia 26 de Janeiro que refere e demonstra, mais uma vez, que Portugal é o país da Europa onde se reprova mais no primeiro ciclo e que o “chumbo” está associado a dificuldades socioeconómicas dos agregados familiares. Ora aí está… são as assimetrias sociais e não o facto dos pais “serem burros” que potencia a reprovação.
Mas se tivermos em conta o ultimo relatório da OCDE divulgado este mês, percebemos claramente que os números também demonstram que a retenção de nada serve para reabilitar o aluno e que, na maioria dos casos apenas contribui para o aumento da estigmatização e exclusão social, para problemas de autoestima nas crianças, para o aumento do abandono escolar precoce e logo para o adensar das assimetrias sociais.
Pois é…a democracia tem destas coisas e eu não gosto delas e não gosto sobretudo que me tentem atirar areia para os olhos.
Reprovar não tem nada a ver nem com exigência nem com qualidade de ensino e enquanto se pensar assim, nunca iremos ser capazes de inverter a situação.
Termino, esta primeira reflexão sobre esta matéria, e digo primeira porque pretendo voltar ao assunto, reiterando, para que não restem duvidas, que não estou aqui a apontar o dedo a ninguém e muito menos aos professores que cumprem ordens e precisam apresentar resultados, mas faço a devida vénia aos que são capazes de remar contra a maré e que focalizam o seu trabalho, naquilo que é realmente importante – o aluno e a sua formação / educação.
Este é um problema da sociedade como um todo mas cabe a quem decide as políticas educativas deste país, perceber que num país tão assimétrico do ponto de vista social, a Educação é um bem precioso e não pode tratar igual, aquilo que é diferente.
Graça Costa
Socióloga
*Artigo não escrito ao abrigo do acordo ortográfico

( artigo publicado esta semana no Jornal Cidade de Tomar )

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