segunda-feira, 25 de abril de 2016

Saudades do (passado) inpossível

Não me custa entender que ainda haja tantas pessoas que, tendo vivido (n)o regime anterior, lamentem o “25 de Abril” e consequências. Estão no seu direito. Se, à democracia, preferem a autocracia, o problema não é meu. Já me causa alguns engulhos de compreensão que alguns deles pensem que, se “nada” tivesse acontecido naquele dia, toda a nossa realidade se teria mantido incólume: ainda tínhamos colónias para explorar, ouvíamos a Emissora Nacional e a Renascença, víamos a RTP (em dois canais e a preto e branco?), líamos jornais sujeitos a exame prévio, bebíamos spurcola e bagaço no café em que olhávamos em redor (não fosse haver bufos encapotados). No meio de tanta “felicidade”, o mundo haveria, com naturalidade e pela inércia, de nos impor regras inconciliáveis com o atavismo das botas de elástico. Dizer convictamente que o 25 de Abril só nos trouxe desgraças é como pensar que os nossos filhos adultos são ainda bebés e que, como já não o são, a culpa é só nossa, porque os deveríamos ter impedido de crescer. Afinal, eram tão engraçados e deixaram de o ser. Viver à moda do 24 de Abril já não é possível. Deo gratias!

Público - 30.04.2016

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