domingo, 29 de julho de 2018


Convívios contranatura...


Desde muito miúdo que o meu primo Dionísio alimenta o mau hábito de surripiar dos ninhos certas espécies selvagens e tenta criá-las para satisfação pessoal; trata-se de um homem que, para além de se ter feito um bom profissional na arte de trabalhar a madeira, cuja actividade exerceu o tempo todo na Àfrica do Sul, nada mais quis aprender daquilo que é indispensável para uma boa vivência em sociedade.

Solteirão empedernido, agora que está velho e reformado, recuperou o antigo vício com o qual se diverte, mesmo sabendo que hoje a lei lhe não permite fazer o que faz com algumas aves, embora com os corvos lhe não possam pegar muito porque usa de uma táctica manhosa, que consiste em impedí-los de voar quando estão prestes a fazê-lo, pelo corte sucessivo de algumas penas das asas, deixando-os por ali a saltitar em regime livre, até que se afeiçoam ao sítio;  depois experimenta deixá-los partir à vontade e tem tido sucesso, pois andam livres por onde querem, juntam-se aos bandos que por aqui passam com frequência, mas voltam sempre a casa, talvez porque não são aceites ou, mais plausível, se habituaram a ter comida sem se esforçarem por ela.

 E é aqui que entra o que li no JN acerca dos problemas que os corvos estão a causar em Vancôvar, no Canadá, atacando as pessoas de forma preocupante, como aqui em alguns lugares já acontece com as gaivotas à procura de alimento; se não o encontram facilmente no habitat natural, depressa descobrem que nos meios urbanos ele é abundante, dado o pouco cuidado na acomodação dos lixos domésticos.

Aves muito inteligentes, os corvos interagem facilmente com as pessoas, roubam descaradamente qualquer coisa que possam e articulam algumas palavras e imitam sons que ouvem com mais frequência; como moro perto do meu primo, o passaroco que agora possui aparece-me com frequência, às vezes disfarçado de rã a coaxar em cima de uma árvore; o que ando a tentar neste momento, quando o cumprimento com um “olá preto”, é fazer com que ele um belo dia assim saúde o “patrão”, que é indecentemente racista...


Amândio G. Martins


3 comentários:

  1. Uma invulgar, interessante e pitoresca história. Obrigado,Sr. Amândio, por no-la ter contado.

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  2. Confesso que senti um arrepio (ou vários). Misto de Hitchcock e Poe, é, no mínimo, perturbante.

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  3. Eu é que agradeço aos dois pela paciência de me terem lido...

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