segunda-feira, 20 de março de 2017

Há dias muito a jeito





Hoje foi bom. O tempo simpatizou connosco, aqueceu-se, afastou cenários assombreados, lutuosos.
Foi mesmo o grande acontecimento do dia, a sua mudança de humores.
Do que sobra para dizer é quase nada e displicente: não nasceram nem mais nem menos pessoas do que ontem; algumas vão ser absolutamente irrelevantes na sua passagem, outras não, algumas ainda vão ser híbridas. Do número de mortos contabilizam-se mais ou menos os mesmos da véspera, uns irão a enterrar outros ficam anónimos de como atravessaram a vida com pressa de saírem dela para o nenhures.
Se alguma guerra terminou não se deu conta. Se começou uma nova, daremos conta no noticiário do jantar, mas já é difícil comover-nos.
Crianças órfãs, violentadas, violadas, contam-se por muitas, mas não é preocupante porque ontem e o dia de amanhã dirão uma contagem idêntica.
O número de vilões per capita mantém-se estacionário, apesar dos pessimistas acharem que a tendência é para aumentar. Os optimistas, fiéis à sua fé, estão convencidos que os vilões estão a desaparecer e que o Bem triunfará finalmente sobre o Mal. Não se sabe quando, mas a fé é inabalável, não se questiona e conjuga bem com a razão.
Os melancólicos continuam a fumar muito, vão ter problemas no futuro se insistem e cada vez está mais caro. Os fleumáticos ainda não decidiram se gostam de fado, mas são vistos a frequentar as casas da especialidade. Também marialvas, mas por outras justificações.
Entre uns e outros há uma quantidade estatisticamente omissa de indivíduos que não sabem/não têm opinião. São esses imprevisíveis que descredibilizam as agências de sondagens.
Os amorfos arruínam as estatísticas. De repente alguém sopra-lhes ao ouvido uma mentira piedosa, e lá vão eles, todos, a correr, depositar voto de confiança. Em quê? Não sabem. Depois é no que dá: a quantidade de estúpidos que não para de aumentar e a quantidade de espertos que não para de enganar os primeiros.
“Rating” é uma palavra inglesa, que nem sequer soa bem.
E foi assim, nada de realmente importante aconteceu no dia de hoje, mais um, em que dizem que começou a primavera e nós não podemos dizer que não, porque eles é que são os fazedores de opinião.

Amanhã, apesar da possibilidade de aguaceiros esperam-se boas abertas, mas é tudo uma lotaria, sem aviso o tempo pode carregar-se ainda mais de sombrio petróleo, ou desanuviar, nunca se sabe.

redondo vocábulo - www.luizrobalo.blogspot.pt   

1 comentário:

  1. Luís, só lhe posso dizer que este seu vogar sereno e e inteligente sobre o Mundo, me encanta. Não diz nada de gongórico nem tonitroante mas antes de muito bem pensado, muito mais que bem escrito, que também o é.

    ResponderEliminar

Caro(a) leitor(a), o seu comentário é sempre muito bem-vindo, desde que o faça sem recorrer a insultos e/ou a ameaças a quem quer que seja. Não serão considerados os comentários anónimos. Obrigado.