quarta-feira, 22 de março de 2017

"Os Deuses Devem Estar Loucos"



Portugal tem estado nas bocas do mundo, pelos seus cantos todos, e pelas melhores razões. Por assuntos vários: políticos, económicos, sociais, culturais, científicos e desportivos. Parece que o português deixou de recear de pensar e, sobretudo, de dizer e fazer o que pensa, porque pensa bem.

Em boa verdade, após uma crise económica grave que se abateu sobre nós,«insolvências e falências de particulares e empresas, quebra de rendimentos, salários e pensões, nivelamento por baixo das classes médias, etc. etc. situações que eram visíveis a olho nu, no dia a dia, por qualquer cidadão atento, e que eram também objecto de fortes críticas e alertas de economistas brilhantes nacionais e estrangeiros, entre estes alguns Nobel de Economia.

E, apesar de Einstein nos ter dito que "não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes", insistiu-se em Portugal e na Europa na receita que nos diziam ser a única possível e eficaz. Talvez tivessem razão os seus defensores, dado que os problemas que os cidadãos estavam a ver querer resolvidos, não eram aqueles que os políticos do governo queriam resolver. Enquanto que os portugueses estavam preocupados em ter comida na mesa, roupa no corpo e casa para viver, os defensores do método empobrecedor estavam preocupados em capitalizar bancos, grandes empresas e satisfazer as suas clientelas familiares e políticas socorrendo-se das estruturas públicas dentro duma suposta legalidade, ou nem por isso, conforma inúmeros casos a decorrer na investigação e na justiça.

Mas, felizmente vivemos em Democracia, e os portugueses manifestaram maioritariamente em Outubro de 2015 outra vontade e intenção de seguir outro caminho, lembrando-se de Agustina Bessa-Luís que nos alerta "o país não precisa de quem diga o que está errado, precisa de quem saiba o que está certo", e seguindo este conselho, foram utilizadas as instituições da democracia portuguesa que nos levaram ao presente momento.


Entram nesta fase Homens como Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Jerónimo de Sousa, e Mulheres como Catarina Martins e Heloísa Apolónia, que interpretando bem o pulsar do povo português, conseguem despir o traje dos preconceitos ideológicos e começar a conjugação das diferenças sempre presentes em qualquer sociedade. Pareceu-me que ouviram todos a Francisco Sá Carneiro a ideia de que "o bom governo é aquele que olha para as realidades e traduz a sua acção no benefício concrecto das pessoas e não no benefício das ideologias ou, eventualmente, até, de interesses imperialistas estrangeiros".

Contudo, o êxito conseguido até ao momento, merece toda a nossa preocupação, que vai no sentido de não haver recuos, excessos de entusiasmo, mas também de não ceder a ameaças vindas de sectores, que agora se sentem ser ultrapassados por uma nova dinâmica da História.

Estou confiante, e sinto esse estado de espírito em vários quadrantes da vida portuguesa, que os nossos eleitos para os diversos cargos políticos nacionais e europeus, saibam preservar o clima de confiança, esperança e dignidade que se respira hoje.

Apesar das infelizes manifestações públicas de uma geração de políticos, como as recentes feitas, de uma irresponsabilidade e ausência de elementares princípios humanistas, que, aliás, justificam a ausência de soluções para os problemas graves que vivemos, e que se aprofundaram, estou convicto de que o exemplo português será tido em conta por outros povos, que lhe conferirá o respeito e a dimensão merecida,

Daí também que é cada vez mais importante uma discussão séria da Europa, do que queremos que ela seja, se responde aos anseios dos povos, se devemos aceitar ou não tudo o que dela é emanado, se as estruturas são ou não as adequadas, em resumo, dito de forma rude e simples, se serve para alguma coisa ou se só serve alguns interesses dos quais o povo não beneficia. Porque "a zona euro continua desenhada como uma voraz máquina de divergência, e ninguém parece decidido a corrigir esse erro de projecto".


Barros Correia
22/3/2017





2 comentários:

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