segunda-feira, 4 de abril de 2016

A esquerda (enfim) pragmática

Há poucos meses, era comum pensar-se que a esquerda portuguesa não tinha o pragmatismo necessário a entendimentos governativos. As ciumeiras existentes entre os diversos partidos e o sentimento de posse da verdade “única” empunhado por cada um prejudicavam os diálogos, tendo-se enraizado a ideia de que nunca seriam capazes do menor acordo. Entrementes, a direita, proprietária “natural” do pragmatismo, usou-o a seu bel-prazer, sem os nojos da miscigenação, desde que lhe cheirasse a Poder. A antiga tese do arco da governabilidade parecia sólida, tanto como a do Fukuyama sobre o fim da História. Mas a vida encarregou-se de demonstrar que, em política, tudo é possível, uma vez que ela própria é a arte do (im)possível. E então, as coisas mudaram, as surpresas “cataduparam-se”. Os primeiros surpreendidos foram os partidos da direita, sobretudo o PSD,  que, valha verdade,  anda há meses a tentar compreender o que se passa, à espera de consertar a realidade, que saiu do trilho. Daí que a sua estratégia passe toda pelo “desfazer da feira” das esquerdas: “eles” não se entendem nem nunca vão entender, “eles” vão-se atraiçoar uns aos outros, “eles” vão partir tudo e, depois, cá estaremos “nós” para colar os cacos, a rogo do Povo. Mesmo que tudo isso venha a acontecer, parece-me pouco para uma estratégia de reconquista da governação, mas Passos Coelho é que sabe. Não será capaz de um pouquinho melhor?    

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