quarta-feira, 8 de junho de 2016

De corda ao pescoço
Cada vez que surgem notícias, vindas de Bruxelas, sobre a economia e as finanças portuguesas, em especial sobre as metas orçamentais, é sempre sob a forma de correctivo, como se um professor se dirigisse a um aluno relapso, que merece ser castigado, mas que a sua benevolência faz com que se adie, para mais uns meses, a decisão sobre o castigo pendente a aplicar. O país sofre, perde consistência, e os portugueses vivem numa permanente situação de menoridade.
É vergonhoso e doloroso navegar neste clima hostil e, no parecer fundado do protector europeu, em estado pecaminoso. Mas, para além do desprezo com que os mais pobres são mimoseados, a insensibilidade dos mais altos dirigentes, especialmente europeus, é uma evidência que revolta qualquer pessoa sensível.
Nenhum português, de corpo inteiro, pode ser considerado cidadão, com cartão ou não, estando sempre pressionado por um areópago, que despreza os seus legítimos direitos de ser considerado pessoa e não, apenas, número estatístico.
Aos senhores que se alimentam directamente da União Europeia, que suga os países que a compõem, pouco lhes interessa os problemas dos cidadãos comuns que têm necessidades, desde a falta de emprego até à perda da habitação, pois eles, lá do alto da montanha, não olham para o sopé.
O governo português apresentou aos tutores, de forma envergonhada, as difíceis contas do cumprimento do orçamento do ano transacto. Suas excelências, do alto do seu poder, como não têm tempo para dar já o seu aval, prometem perceber as dificuldades que surgiram na governação, e sugerem mais sacrifícios, para colmatar previsíveis falhas, deixando no ar eventuais castigos ou, no final, um clemente perdão.
Isto tem de nos envergonhar, porque, se somos uma família europeia, qualquer problema de um país é uma parte que afecta o todo.
O que dói mais, é a maneira, pouco respeitosa, como os dirigentes governamentais aferem as posições dos diferentes países da União Europeia, pois os cidadãos dos mais pobres são como enteados, e os dos mais ricos e industrializados são filhos legítimos da União Europeia. Aos países da cauda dão-se ajudas financeiras, parciais, para estradas, pontes e linhas de transporte, mas não se consente que se criem estruturas industriais que entrem nas linhas dos produtos exportáveis e transacionáveis, concorrentes com os países poderosos que estão implantados no terreno. Entretanto, a maioria dos nossos representantes baixa a cerviz, e entra na festa, como se tivesse perdido a sua identidade nacional e alcançado o estrelato europeu.

Joaquim Carreira Tapadinhas, Montijo

5 comentários:

  1. Publicado hoje (8.06.2016), na íntegra, no Diário de Notícias, na secção Cartas dos Leitores, pág. 6.

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  2. Li e gostei muito da sua interpretação a tudo o que se passa em Bruxelas, com Portugal à perna.

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  3. Comentar o quê?. Está tudo dito!!!...

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    1. Muito obrigado a ambos, José e Fernanda, pela simpatia e pelo acordo com as minhas palavras.

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  4. Publicado hoje (10.06.2016), com cortes, no jornal Expresso, na secção Cartas, página 38.

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